terça-feira, 4 de maio de 2010

Distribuição dos Presentes Solidários

Tinha recebido uma notícia triste... o apoio que íamos receber para o salário das professoras ficou congelado, até a "Avó" Mary Anne gastar o dinheiro que tem para nós podermos receber o nosso. Na sexta, às 21h recebo uma chamada da Alemanha: "olhe, soubemos do seu trabalho e queríamos dar 850 euros para o seu Jardim-de-Infância em Aileu." Não sei quem foi (claro que entretanto já tenho o nome), mas foi como caído do céu. Claro que para salários não chega, mas cobre outras despesas e o restante vai-se arranjando.

Este fim-de-semana foi o dia da distribuição dos Presentes Solidários. Todas as crianças apareceram na escola para a sessão de fotografias.














Vestiam os seus melhores trajes, porque há muito que corria a notícia de que viria ajuda de Portugal. Alguns pais vieram também para assistir à chegada do tal ansiado carro com as mercadorias.


















A todos os que contribuíram para este grande presente, um muito obrigado das nossas crianças!

Depois da sessão fotográfica, seguiu-se uma pequena reunião com as professoras, em que se preparou os programas para as próximas duas semanas, dado que segunda começava a escola. E aconteceu uma coisa engraçada: um dos temas para o mês de Julho será a Água, e uma das aulas que propus foi ler a história “A Menina Gotinha de Água” que entretanto traduzi para Tétum. Então perguntei-lhes: "Mas vocês sabem porque chove?" E elas: "Bem, porque as plantas precisam de água para crescer.” Então percebi que elas não sabiam, e expliquei-lhes com base na história. Acabaram por dizer: “A mana tem razão; quando chove há nuvens.” E percebi ainda que para elas, ser professor, também é ser aluno. E se calhar ao contrário do que os profissionais pensam, fiquei contente, porque é assim que uma nação nasce.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Presentes Solidários e outros

Actualizando estas últimas semanas:

Foram duas semanas de formação intensiva em Díli, onde as professoras do Jardim-de-Infância desenvolveram mais os seus conhecimentos na área da música, motricidade, dinamização, teatro e narração.














Vieram todas entusiasmadas e já me deram a mim o trabalho-de-casa (tenho de fazer o inventário da escola). A formação continuará na próxima interrupção lectiva, em Agosto.














Enquanto as duas agora preparam este segundo período que começará segunda, eu tenho andado ocupada com a compra dos Presentes Solidários. Foram 3500 pastas-de-dentes, 652 toalhas, 187 sacos de arroz de 35kg, 1300 pacotes de mistura nutricional, 1300 escovas-de-dentes, 652 baldes e 1300 escovas-de-dentes.

domingo, 28 de março de 2010

Via Sacra


Alvorada: 5.30h
Partida de Díli: 6.00h


Chegada a Aileu: 7.45h, tudo preparado para a grande festa


O palco estava já montado.



1.º momento: A Última Ceia


2.º momento: Jesus abençoa o pão e o vinho, e reparte pelos discípulos


3.º momento: o Lava-Pés


4.º momento: Jesus carrega a cruz (aqui, as crianças gritavam "Crucifiquem-no. Soltem Barrabás."


5.º momento: Jesus é açoitado


6.º momento: Jesus cai


7.º momento: Simão carrega a cruz


8.º momento: As vestes de Jesus são-lhe arrancadas


9.º momento: Jesus é crucificado


10.º momento: Jesus morre


11.º momento: Jesus é envolvido em panos e sepultado



A representação terminou com um "Hosana, Jesus ressuscitou". Estavam todos esfomeados. E enquanto os pais recebiam as cadernetas de avaliação, as crianças recebiam a merenda, num gesto de partilha por parte dos pais (cada um trouxe algo).
Houve outros momentos, as fotografias é que não ficaram boas: Verónica enxuga o rosto de Jesus, Judas recebe dinheiro dos sacerdotes, Judas beija o rosto de Jesus.
Uma manhã bastante comovente. Agora só daqui a um mês, porque entrámos em férias. As professoras vão aproveitar este tempo, e seguem para Díli para a semana para duas semanas de formação.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Um país de contradições

Estava aqui sentada no Katuas, numa cadeira almofadada, com a minha música, o meu telemóvel, as chaves do quarto, a beber um cafezito, com o computador à frente, a desfrutar depois de um dia intenso de trabalho... Do outro lado do vidro passa um velho homem, o verdadeiro Katuas; talvez não fosse velho, mas as marcas históricas no rosto revelavam, pelo menos, uma certa vivência. Andava curvado, magro, enrolado a um saco plástico transparente que revelava um corpo semi-nu, com uma gabardine para se proteger da chuva (chove!). Procurava um sítio para dormir. Olhou na minha direcção e eu virei o olhar para o outro lado com vergonha da minha comodidade.
Um país de contradições, às vezes separadas apenas por um vidro!

quinta-feira, 18 de março de 2010

Com o final das chuvas

Domingo foi dia de ir a Aileu.














Anda tudo na azáfama a aproveitar os últimos dias de chuva... Belíssimo! Mas a chuva deixa as suas marcas, e não sei muito bem se da próxima vez que for a Aileu poderei chegar ao destino. Pedaços de troncos no meio da estrada, desabamentos, pedaços de estrada que desapareceram, restos de alcatrão a ceder... como se não bastasse o grau de perigo daquela estrada todo o ano.











Chegados a Aileu, encontramos esta casa desmontada... É uma casa que as manas usavam como armação e que agora estava com menos uma parede. Mas ao entrarmos no ATL, rapidamente percebemos... tinha-se desmontado uma parede para fazer outra. SIM, já temos parede entre a sala da 2.ª infantil e o ATL. Vejam só como ficou bonito.














O pior da história é: desconfio que quando me for embora, a mesma parede que já foi outra parede vai ser usada para fazer outra parede. Não se riam, porque se desconfio, é porque algo semelhante já aconteceu.

Mais à frente, estava o nosso corta-relva... mas não um eléctrico, um tradicional... nomeadamente um cavalo que tinha sido pedido emprestado ao vizinho para ir comer a erva do recreio das crianças. Engenhoso!!

Estamos a chegar ao final do 2.º período e, com ele, a avaliação e a festa final. A manhã foi de grande trabalho e o almoço ficou adiado para as 14.30h. Começámos por trabalhar na avaliação das crianças com base na caderneta do Ministério da Educação à qual finalmente temos direito. Fiquei bastante desiludida, porque está escrita em português. E se até as minhas professoras que têm base do Português tinham dificuldade em compreender, pior vai ser os pais. Exemplo: "Coordenação Grossa". Mas que raio?! pensaram as professoras. Talvez faça a tradução e anexe à cadernenta.
Depois de tudo preparado e com trabalhos-de-casa atribuídos (preencher as cadernetas), passámos à análise da gestão financeira que actualmente está a cargo da D. Lúcia. Tudo certinho... Oúltimo ponto da agenda foi a preparação da festa final que já está em curso... Definitivamente vamos fazer a Via Sacra. Já temos a cruz feita e os papéis distribuídos.
Entretanto, o Nuno avançava com a pintura das portas da escola nova, com o seguinte resultado:














Durante a semana, celebrou-se o dia do Pai (com uma semana de antecipação, devido aos exames). Ao questionarmos as crianças quanto à importância do pai, foi da opinião geral que o pai é melhor que a mãe, porque o pai compra sapatos e doces, enquanto a mãe só ralha.

Mostro-vos o nosso mais recente quadro: "Quantos somos?" que é preenchido todas as manhãs com a contagem dos meninos e das meninas e depois fazendo a soma total. É uma forma de introduzirmos a matemática num contexto real.


Algumas crianças também já vão escrevendo o nome. Ora vejam lá, não é magnífico? Ainda na etapa das cópias, mas não deixa de ser digno de se louvar.

A vida é feita de dias bons e dias maus. E é quando estamos mais melancólicos, que temos maior necessidade de encontrar algo que nos anime. E nesta busca encontramos os sorrisos, as pequenas vitórias, os progressos, as pequenas independências...

quarta-feira, 10 de março de 2010

A vida solitária

Hoje foi um dia mau, tal como têm sido os últimos dias, mas também tenho vindo a aprender muito, e perante estas aprendizagens vejo que ainda tenho muito que aprender sobre a vida. Tem vindo a ser difícil "to cope" com algumas descobertas, o que se deve essencialmente ao meu cansaço.
Mas hoje disseram cruamente: "Acho que só agora estás a descobrir o que é Timor. Estar aqui é viver uma vida solitária. Se achas que és capaz de aceitar esta realidade, então fica!"
Mais tarde, ao sair de um longo dia de trabalho, encontrei uma criança pelo caminho que me sorriu abertamente, totalmente sem medo, sem vergonha. Afinal a vida aqui não é assim tão solitária... (não tenho fotografia da criança porque não levava a máquina, mas ficam outros sorrisos igualmente inspiradores).

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

As últimas duas semanas

Vamos recapitular as duas últimas semanas (dado que já tenho as fotografias):

No dia 7 de Fevereiro fui com dois ajudantes para Aileu. Enquanto andei com as professoras a pôr as contas em ordem, resolver assuntos pendentes e a desempacotar caixas com novos materiais vindos da Austrália, os meus dois ajudantes entreteram-se a "envidraçar” uma das janelas da sala nova, a pôr um cadeado e a fazer uma caixa de areia para o recreio.




No mesmo dia, os meninos do ATL vieram estrear a sua sala nova, e estiveram a assistir ao “Hércules”.












Durante a semana seguinte, as Sementinhas retomaram os seus trabalhos habituais:

Uma aula de letras





O momento em grupos

Uma aula de educação física

Brincadeiras no recreio

Uma aula de música

Na semana seguinte, a D. Mafalda apanhou malária e esteve de cama. Mas não faltaram ajudantes para preparar o Carnaval.


Este domingo, fomos com o intuito de levar arroz para a escola, sendo que em Aileu não há. Passei a minha manhã de sábado à procura de arroz em Díli, e também não havia, à excepção de uns saquitos mais pequenos ao preço do ouro. Ou seja, há um grande problema de escassez de arroz e o que há está inflacionado. É claro que aquelas boquinhas, apesar de pequeninas, dão cabo de um saco de arroz de 16kg todas as semanas, por isso estou bem tramada.


O meu ajudante esteve a pintar a nova mezinha redonda (a tão esperada, claro que continua a faltar a parede), enquanto estive com as professoras a fazer a avaliação da semana e a preparar a festa de final de período. Para as professoras a preocupação é sempre A ROUPA, e nunca COMO VAMOS FAZER, mas ache engraçado. Decidimos que iríamos reproduzir a via-sacra, começando no lava-pés até à crucificação. Teremos também, em princípio, a visita de um mágico que irá fazer alguns truques de magia para as crianças. É estranho, parece que ainda começámos ontem, mas a verdade é que daqui a 3 semanas já temos exames. E, passados quase 2 anos, já temos cadernetas do Ministério da Educação. Aliás, o nosso trabalho foi finalmente reconhecido por parte do Centro de Educação, uma das melhores escolas de Aileu, foi-nos prometida brevemente merenda escolar, oferecido material se precisarmos, e já há pedidos para que as professoras mudem para a escola primária (é claro que eu não deixo :) ).


Por último, fomos a casa do Sr. Carlos mecânico para que nos desse uns pneus velhos e, assim, temos mais quatro pneus para as brincadeiras no recreio. (É claro que tive de informar as manas que os pneus eram para as crianças e não para plantar flores). O Sr. Carlos perguntou-me três vezes para que é que eu queria os pneus e de todas as vezes expliquei. Mas acho que ele continuou a pensar “Estes malais são loucos.” Encolheu os ombros e disse que pelo menos agradecia o facto de não estarem lá a ocupar espaço.