quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A 7.ª chegada

As chegadas são sempre difíceis...

A saída é sempre triste, mesmo que não seja a última, e a aterragem é sempre assustadora, mesmo que não seja a primeira. E mais assustador é ver a pilha de papéis em cima da mesa, acumuladas ao longo do breve espaço de tempo que se está fora.

Timor... de volta à terra dos sonhos...

Aileu... depois de um mês de férias, as aulas começaram. Os mais velhos têm uma nova professora, a Lourença, jovem entusiasta, que irá substituir a D. Lúcia durante um mês (o bebé já nasceu! Mais um rapaz!). Este é o mês dos animais e da nação Timor na comemoração do 11.º aniversário do referendo que deu a independência ao país. De resto, uma nova estrutura para os baloiços, um rato morto dentro de uma caixa de barbies :), uns sacos de arroz que hão-de aparecer, prémios recebidos pela melhor escola na competição de teatro, óptimas aprendizagens e relatos sobre as formações de Agosto, menos uma criança que fugiu para Díli porque a avó lhe batia, o ATL sempre a funcionar independentemente de quem esteja... O sol nasce sempre!




E com toda esta azáfama de início de aulas, começam os carros cheios de coisas boas da Austrália. Desta vez material de ginásio (bolas, arcos, cordas), papel, livros... E ainda a nossa dose de multi-mistura nutritiva vinda de Baucau, graças aos Presentes Solidários.



Embora tenha chegado apenas há 2 semanas, muitas coisas aconteceram. Fui finalmente visitar o amigo Pedro, em Manatuto em Laclubar. Laclubar fica a cerca de 90km de Díli o que nos tomou cerca de 4 horas de viagem. Até Manatuto a estrada é “boa” (boa em comparação com as restantes); tem uma paisagem magnífica porque segue sempre a linha do mar. Chegando a Manatuto, temos de entrar para a montanha. Entre curvas e contra-curvas, a última hora é numa estrada que mistura terra, areia, lama e pedras. No final o corpo está todo dorido, nem o cinto de segurança ampara.


Quando avistámos aquilo que pensámos ser Laclubar, perguntámos quanto tempo faltava. Disseram-nos os locais que ainda tínhamos entre 20 a 40 min pela frente e nós pensámos: “Aqui ninguém tem noção do tempo. É já ali!” Mas o facto é que de facto “é já ali”, mas a verdade é que são mais umas dúzias de curvas e contra-curvas; e não é que tinham razão?

Chegados a Laclubar, depois daquele trajecto terrível, num local onde não há rede telefónica, encontrámos uma acomodação de luxo com os Irmãos S. João de Deus que é onde o Pedro trabalha. Os irmãos estiveram a construir novos espaços para doentes mentais. Com a fotografia seguinte, acho que não preciso de descrever a recepção que tivémos:


Visitámos a clínica para tuberculosos onde o Pedro trabalha, a biblioteca e o ATL orientados pelo grupo e a igreja com uns vitrais que nunca vi em Timor. Os locais acolheram-nos de braços abertos, gente simples mas mais pura. Tivémos direito ainda a um jantar delicioso preparado pela D. Filomena que falava muito bem português.
Os mais aventureiros ainda subiram a montanha que abraça o vale na manhã do dia seguinte.
Uma paragem pelo mercado entusiasmou os que menos frequentam os mercados timorenses: um autêntico parque de estacionamento de cavalos e burros que há algumas horas atrás cavalgavam pelos montes acima e abaixo, trazendo as mercadorias para vender.

Sempre a chuviscar, partimos antes do almoço, ainda a tempo de um mergulho na praia e uma paragem em Manatuto para almoçar uns fritos tradicionais. Do Pedro ficou ainda mais a certeza da dimensão do coração dele. Um ano naquele local não é fácil, por mais belo que seja. E ficou ainda a promessa de que voltaríamos e desta vez para conhecer uma aldeia onde o Pedro também trabalha, a 12 horas de caminho a pé de Laclubar. Não esquecer desta vez as sapatilhas!


















sexta-feira, 30 de julho de 2010

MAIS UM CABELO BRANCO...

domingo, 25 de julho de 2010

Até ao próximo período!

Dia de Aileu: e desta vez com convidados especiais. A semana que antecedeu à ida foi marcada por várias chegadas (e partidas também). A Raquel, que fez missão comigo em 2006, foi uma delas.
A caminho de Aileu, os 3 manos pararam para uma foto:

Os meus 6 ajudantes puseram-se logo ao trabalho, a plastificar livros, cartões de motricidade e etiquetar as nossas caixas de arrumos:

A D. Lúcia afinal vai ter o bebé em Agosto (acho que houve um erro de cálculo). Por isso já não vai à formação. Mas felizmente a Lourença vai poder substituí-la, uma vez que também vai substituir a D. Lúcia durante o período pós-parto.
As nossas crianças, que já fizeram os exames e que avançam agora para a última semana de aulas, continuam com os seus magníficos trabalhos:
- Bonecos em pasta de papel:


- Aprendizagem da noção de esquerdo e direito:


- Alimentação: depois de ouvirem a história do pé de feijão, as crianças plantaram feijão em algodão e pintaram uma nuvem para ver se os seus pés de feijão também chegam às nuvens como na história


E acaba por aqui, porque agora vamos todos de férias e só voltamos daqui a 1 mês (incluíndo eu!!!!).

domingo, 11 de julho de 2010

Época da seca ou das chuvas?

Estamos em Julho e parece que a época das chuvas não quer acabar. Esta semana tivemos a pior inundação de todos os tempos. Mais umas horas de chuva e a capital ficaria submersa. Os timorenses estavam contentes e pediram por mais umas horas de chuva para que no dia seguinte não viessem trabalhar. No entanto, foi grave. Muitas casas destruídas, pessoas desaparecidas, carros parados, carros em contra-mão, o caos instalado.

Esta fotografia foi tirada à frente de minha casa, e pode-se dizer que nem estava muito mau. Agora na rua onde trabalho, a água dava-nos quase pela cintura. A solução: tirar os saltos altos, arregaçar a saia e regressar a casa. Claro que quando cheguei a casa estava com umas manchas meias manhosas nas pernas... enfim! O problema não foi o excesso de chuva (apesar de ter chovido uma grande carga de água), mas a falta de sistemas de saneamento e a limpeza.

Este fim-de-semana foi dedicado a Aileu, embora não tenha ficado muito satisfeita por vários motivos relacionados com a instituição “escola” e não com o seu funcionamento. Um deles prende-se com o final do segundo período. A Cruz Jovem – uma actividade da Igreja Católica em Timor (a cruz é levada de capela em capela durante um ano) – vem esta próxima semana para Aisirimou (o suco onde está situada a escola) e permanecerá até ao dia 8 de Agosto. Ora, tudo o que é feito aqui exige grande preparação prévia e acompanhamento, e a sua conclusão é também uma etapa bastante prolongada. Para além disso exige sempre muitos recursos humanos. O Centro de Educação veio-nos dizer que neste período lectivo não se iria fazer a entrega dos boletins de avaliação, nem as festas finais de período, dado que a Cruz Jovem estaria em Aisirimou e as pessoas (pais e crianças) não teriam tempo de ir à escola para ir tomar parte dos procedimentos típicos de final de período. É claro que para a comunidade é normal, porque é assim que acontece quando há algum evento da Igreja. Faz parte da sua vivência e não tem explicação, é um “must”. Mas para mim, não minha cultura, não percebo porque é que uma coisa influencia a outra e, principalmente, porque é que a Educação é sempre deixada em segundo plano e qualquer coisa é sempre mais prioritária. Ou seja, não teremos festa, mas as avaliações vão ser realizadas pelo menos na nossa escola e os pais vão ser convidados a vir à escola para verem os boletins quando lhes for mais oportuno.
Outra coisa que me aborreceu foi o facto de a nossa escola ter de contribuir com dois sacos de arroz para as festas da Cruz Jovem, quando as nossas crianças nunca têm direito a comer nestas festas. E, mais uma vez, somos obrigados a contribuir com algo que nos é tão valioso na escola e que ninguém irá repor.

A chuva não só afectou Díli como também a nossa escola. A sala “nova”, por mais obras que se façam, não tem solução. Só mesmo construir de novo, embora me dê pena porque apesar de tudo é bastante convidativa e a D. Lúcia mantém-na sempre arranjada. Teríamos de deitar as paredes abaixo e construir novas, mas ainda não há recursos financeiros para o fazer.

As crianças continuam a enfeitar as salas com os seus desenhos coloridos. Foi a semana da alimentação, então pintaram o desenvolvimento do milho na 2.ª infantil. A 1.ª infantil festejou o “suposto” início da época seca e pintaram as diferentes cores das folhas das árvores nesta época, com esponjas e aguarelas.

Os Presentes Solidários têm desaparecido a olhos vistos. Só na minha escola foram consumidos já 210kg de arroz em apenas 2 meses e meio. Gostam tanto da multi-mistura (já consumiram 10kg) que não se ficam por apenas uma pratada de arroz. Vamos comprar agora os nossos próprios pratos e colheres para não sobrecarregarmos as manas.

Enquanto fazíamos a nossa reunião, os filhos da Lourença brincavam no nosso escorrega improvisado.

A barriga da D. Lúcia está cada vez maior. Fui falar com as Irmãs da Caridade a ver se podiam dar boleia à D. Lúcia em Agosto para a formação em Díli, uma vez que não quero que ela venha para Díli na angguna naquele estado. A resposta foi negativa, uma vez que o condutor, que é timorense, não gosta de transportar mulheres naquele estado. Os timorenses têm muitas superstições. Para nós parece-nos estranho, mas gatos e cadáveres não entram em carros, a não ser em carros funerários ou ambulâncias e mesmo assim a porta de trás vai aberta. Tenho percebido que os internacionais recentemente chegados a Timor ficam chocados com a cultura, mas eu cá acho fascinante, até porque tenho a certeza que também os timorenses ficam chocados com a nossa cultura.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Dia Internacional da Criança 2010

Não tenho fotografias, porque a minha máquina está em Portugal em reparações. Mas também aqui comemorámos o Dia Mundial da Criança. Todos inicialmente um pouco desapontados, porque desta vez não era a Díli, mas ja não sou a mesma jovem do ano passado :)

Preparativos:

- jogos para um passeio na ribeira de Saboria com merenda por lá
- 40 crianças
- 1 caixa de Supermi
- 2 caixas de Frutamin (ainda fiquei na dúvida na loja a pensar se chegaria)
- arroz
- 4 professoras

Resultado, algo semelhante a isto (pelo menos foi como me pintaram):



- 80 crianças
- jogos mantiveram-se
- o dobro da comida
- 3 professoras

Como sempre, MÁGICO!!!! E sem a minha ajuda!!! E acho que Díli já ficou esquecido.

Iniciativas


Mais um dia de trabalho a preparar os cartazes da motricidade (e cá está a futura mamã... já se vê). Estes cartazes são um dos trabalhos-de-casa que terão de usar nas aulas até Agosto e apresentar na formação de Agosto. Tem sido engraçado vê-las a trabalhar, porque desta vez fiz mesmo questão de não ser eu a fazer. Andamos nestes cartazes há pelo menos 3 reuniões, porque achei que elas deveriam perceber que têm de se esforçar e querer ser melhor. Se está bem, porque não fazer melhor? Se calhar o nosso problema é que aqui ficamos sempre contentes com o mínimo "Ah, pelo menos fizeram.", mas porque não exigir um pouco mais? Não estaremos a contribuir para a preguiça? Sinto, por exemplo, que a D. Lúcia tem evoluido muito, vem com iniciativas próprias e vejo a sua dedicação. Ainda no outro dia construiu uma caixa de areia para a sala de aula para treinar a motricidade, sem eu dizer nada (aliás, eu tinha dito que como ainda não tínhamos as bandejas, que não era preciso).

A D. Mafalda é muito mais velha, por isso a evolução é mais lenta. Mas ainda na semana passada, cujo tema era a higiene oral, desencantou uns materiais para as crianças construirem um dente saudável (e na foto vêem o resultado). Na semana anterior, em que falámos das cores vermelho e amarelo, pintáram um sol.

No ATL tem havido também mudanças por iniciativa da Lourença. Foi falar com pais de outras localidades lá perto, incentivá-los a trazer as crianças para o ATL. Resultado: 40 crianças na aula seguinte. Também cheia de ideias, pediu-me se lhe arranjava um dossier com alguns materiais...

E, como prometido, cá está a fotografia das toalhas adquiridas através dos Presentes Solidários, penduradas nos famosos cabides. As borboletas são a turma da D. Lúcia, os sóis a turma da D. Mafalda.












O nosso recreio teve também melhorias... para que certos pneus não fossem usados como vasos, os mesmos foram enterrados (e não foi minha iniciativa, mas sim de uma das manas!)

O Nuno foi comigo e esteve a "tentar" resolver algumas falhas no tecto falso, por causa da entrada dos ratos. Mas não há muito mais a fazer com aquela casa se não destruí-la e construir de novo.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Nova vida


Tivemos uma boa notícia.... daqui a 4 anos teremos mais uma criança no nosso Jardim das Sementinhas... Pois é, a professora Lúcia está grávida do 5.º filho (o que não é muito, tendo em conta que as famílias timorenses possuem em média 6 filhos). A nova sementinha irá nascer em Outubro, mas a D. Lúcia adiantou logo que jamais perderia as formações de Agosto. Vamos ter de arranjar uma substituta que provavelmente será a Lourença que tem estado à frente do ATL e que tem participado nalgumas aulas da infantil, porque também quer aprender.

Comemorámos recentemente o Dia da Independência, no dia 20 de Maio. Foi feriado e todos nos aconselharam a ficar em casa, porque há muito que se falava na ocorrência de conflitos. Afinal nada de especial. Aqui fala-se muito, ouvem-se muitas coisas, muitas vezes contraditórias, mas a estratégia é retirar um pouco de informação de cada uma das afirmações e juntá-las, porque cada uma tem um fundo de verdade. Um exemplo simples: No outro dia estava no aeroporto (como sempre a acompanhar alguém que partia de férias, sou sempre eu que fico) e vejo chegar um caixão. Mais tarde ouvi a história de que um rapaz timorense tinha falecido em Jacarta num acidente de viação e sido trazido para Díli. Afinal, era uma rapariga timorense que tinha morrido em Jogjakarta, vítima de dengue. No final, as informações comuns eram “cidadão timorense que morreu na Indonésia”. Como vêem, tudo tem um fundo de verdade...

Aprendi também com as minhas professoras a construir estes puzzles. São amigas, mas muitas vezes é cada um por si. Quando alguma me telefona a fazer queixa, também porque me quer impressionar, imediatamente ligo à outra. Das duas histórias retiro uma verdade aproximada. É um jogo mental extremamente cansativo.

O ATL continua a funcionar normalmente aos domingos... o único problema é que nos cortam agora a electricidade às 11h da manhã. Logo, entre a saída da missa e as 11h não há grande tempo de ver pela quinquagésima quinta vez a Cinderela. Em contrapartida, ficam a estudar e a brincar até à hora do almoço.

O Jardim-de-Infância já tem os cabides para pendurar as toalhas que recebemos através dos presentes solidários. (ainda não tenho as fotografias). Os nossos baloiços, de facto, já não têm grande emenda, só mesmo desfazer e refazer. Na semana passada, tivemos a visita de um Polícia que nos veio falar de segurança e esta próxima seremos visitados por um enfermeiro que nos virá explicar a importância da nossa saúde e de como a vacinação é importante.
A sala da D. Lúcia já tem umas carpetes novas em espuma que consegui desencantar aqui, muito engraçadas por acaso... já nos conseguimos livrar daquelas carpetes que só acumulavam pó, lixo e bicharada. O próximo passo será a sala da D. Mafalda, mas como a sala é maior, a despesa será também maior.