quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Mais visitantes


Este deve ser o Jardim-de-Infancia mais visitado de Timor. Desta vez, tivemos a visita da Nerta e do Helder, professores da Escola Portuguesa de Dili. E claro que participaram nos nossos trabalhos. Com o carro carregado de arroz para as criancas, la fomos nos montanha acima.

A segunda Infantil tinha uma sala de desenhos pendurados. Tinham ja passado pelo tema dos animais em que falaram sobre o desenvolvimento da borboleta e ate pintaram umas folhas e usaram o furador para simular que a lagarta tinha passado por ali e comido. O tema seguinte foi Timor (dado o 30 de Agosto) e estiveram a pintar bandeiras e a fazer tais em papel (ja expliquei 30 mil vezes que os nomes das criancas nao se escrevem no meio do papel, mas sim num canto ou no verso, mas... ja desisti). A Lourenca tem feito um optimo trabalho.














A saida, ja eram quase 3 horas, os meninos do ATL vieram-se despedir a porta. Neste dia, como a Lourenca estava em reuniao comigo, a Beatriz tomou conta da sala.








Fizemos ainda a tradicional visita ao crocodilo de Aileu (nao, nao e de borracha, e tambem nao anda na rua, esta preso), seguida do tambem tradicional almoco na Tia Silvina.

sábado, 2 de outubro de 2010

Mediação

No âmbito do projecto para o qual trabalho em Díli, fomos esta segunda para Metinaro assistir a uma mediação feita por mediadores treinados por nós. Seria uma coisa em grande, dado que o conflito era entre dois sucos (tipo o nosso município, mas a um nível mais pequeno). Tinham aberto um furo de água na fronteira entre os dois sucos, mas apenas um usufruia da água. O objectivo era a reconciliação entre os dois sucos e a decisão de ambos os sucos usufruirem do furo.

A mediação iria ter lugar num local público, de forma a que as comunidades de ambos os sucos pudessem assistir. À chegada, um grupo de ferik (=velhas), katuas (=velhos) e crianças dançavam ao som dos gongues e tambores. Havia tendas montadas, o palco das pessoas importantes e o sinal da nossa presença naquele local: os cartazes do nosso projecto a explicar o que é a mediação.


Na cozinha improvisada atrás da sede do suco, os homens preparavam os animais para o banquete para depois da mediação, em sinal de comunhão. As mulheres trabalhavam ao lume.


Apesar de termos chegado já 30 min atrasados, ainda esperámos mais 1h30 para que começasse (o normal) e, antes de chegarmos à mediação propriamente dita, ainda tivemos de ouvir o Comandante das Forças Armadas a falar, o Administrador do Sub-distrito de Díli, a representante de uma ONG, mais... etc.




Finalmente a mediação. Os representantes de cada suco colocaram-se frente a frente e os mediadores no centro. Cada parte em conflicto expôs a sua visão da situação e, com a ajuda dos mediadores, chegaram à reconciliação e à assinatura do acordo em como se mantiriam fiéis ao falado durante a resolução do conflito. No final, falaram os Lia Nains (fotografia com os trajes). O Lia Nain é um membro da comunidade que, a nível da justiça local, se não é a pessoa mais importante, é pelo menos uma delas. Lia Nain, que se traduz por "o dono da palavra", é aquele que todos ouvem e respeitam. Para muitos, o Lia Nain é a única autoridade existente a nível comunitário, nem mesmo o chefe de aldeia ou de suco ou o padre ou a polícia tem tanta autoridade como ele. Neste dia, os Lia Nains, um de cada suco, falaram sobre as sanções em caso de incumprimento do acordo:

- pagamento de um búfalo no valor de $500, ou

- serviço comunitário durante 80 dias

Toda a gente se calou em sinal de respeito e também de curiosidade. Falavam Galoli, o dialecto local. A única palavra que compreendemos foi um "obrigadu" no final.


Partimos logo após o almoço, mas sabemos que a festa durou até ao dia seguinte de manhã.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Tantas prendas!

(texto sem acentos)
Ida a Aileu com um carro carregadíssimo de presentes para os meninos da Infantil. De facto o Pai Natal parecia que tinha chegado mais cedo... todo o nosso stock de materiais de ginástica (que anteriormente era composto por bolas feitas de jornal e fita-cola castanha, arcos feitos em cartolina enrolados a fita-cola castanha também pk a cartolina tinha umas falhas, cordas feitas de pequenas cordas umas atadas às outras - agora se vê a energia que eu tinha) foi renovado com arcos, bolas, cordas, raquetes, tudo VERDADEIRO! Ah, e uma coisa engraçada, uma espécie de catapulta. Numa ponta põe-se uma bola e pressiona-se com o pé na outra. A bola salta e o objectivo e agarrá-la (para as actividades de motricidade grossa).




Ao subir a montanha, avistava-se o navio Sagres que está de passagem aqui no porto de Díli. O barco seguiu-nos o trajecto pelo mar, nós pela montanha.









Chegados a Aileu, já nos esperavam à porta das salas de aula. Mãos ao trabalho. Enquanto uns arrumavam os novos materiais, outros faziam as limpezas, outros faziam o jogo da memória com relógios ou faziam um dado de números.



















A Lourença mostrou-nos o kiosk que construiu com as criancas, ao qual as criancas deram o nome de Mukit (a semelhanca da loja mais famosa de Aileu). Recortaram uma entrada e uma saida com toldo :) Pintaram e estiveram a fazer teatros (o tema era o dinheiro). Ao contrario do que eu estava a espera, todos reconheciam facilmente as moedas e sabiam o que podiam comprar com cada uma delas.


Com os mais pequeninos, o tema era o desenvolvimento do pinto - desde o ovo ate a galinha/galo. Quiseram ir conhecer a capoeira la das manas e ver as galinhas a chocar. E teimaram que os ovos deviam abrir naquele preciso momento para se certificarem de que a Professora Mafalda tinha explicado tudo correctamente.

A visita ainda se estendeu a casa da D. Lucia para conhecer o Andre - o 7. filho - que mamava e dormia ao mesmo tempo. Agora perguntem-me: "Mas tao agasalhados. Esta frio em Aileu?" Naaaaooo. Estava um calor que nao se podia dentro da casa da D. Lucia. O telhado e de chapa que absorve o calor do sol; e eu sentia aquele calor a imanar do telhado. E eu disse: "D. Lucia, nao tem calor?" (eu via o bebe a suar). E entao explicou-me: "Nao, mana, no primeiro mes nos os dois temos de estar quentinhos." E eu lembrei-me do que ja tinha lido sobre os partos. Dar a luz em tetum diz-se "tuur ahi" que significa "sentar ao fogo" e que se refere tambem ao periodo pos-parto. Na tradicao timorense, apos o parto, a mulher deve manter-se em casa, junto ao calor.


Domingo, e porque era merecido, uma ida a praia. Nao vale invejar...



quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A 7.ª chegada

As chegadas são sempre difíceis...

A saída é sempre triste, mesmo que não seja a última, e a aterragem é sempre assustadora, mesmo que não seja a primeira. E mais assustador é ver a pilha de papéis em cima da mesa, acumuladas ao longo do breve espaço de tempo que se está fora.

Timor... de volta à terra dos sonhos...

Aileu... depois de um mês de férias, as aulas começaram. Os mais velhos têm uma nova professora, a Lourença, jovem entusiasta, que irá substituir a D. Lúcia durante um mês (o bebé já nasceu! Mais um rapaz!). Este é o mês dos animais e da nação Timor na comemoração do 11.º aniversário do referendo que deu a independência ao país. De resto, uma nova estrutura para os baloiços, um rato morto dentro de uma caixa de barbies :), uns sacos de arroz que hão-de aparecer, prémios recebidos pela melhor escola na competição de teatro, óptimas aprendizagens e relatos sobre as formações de Agosto, menos uma criança que fugiu para Díli porque a avó lhe batia, o ATL sempre a funcionar independentemente de quem esteja... O sol nasce sempre!




E com toda esta azáfama de início de aulas, começam os carros cheios de coisas boas da Austrália. Desta vez material de ginásio (bolas, arcos, cordas), papel, livros... E ainda a nossa dose de multi-mistura nutritiva vinda de Baucau, graças aos Presentes Solidários.



Embora tenha chegado apenas há 2 semanas, muitas coisas aconteceram. Fui finalmente visitar o amigo Pedro, em Manatuto em Laclubar. Laclubar fica a cerca de 90km de Díli o que nos tomou cerca de 4 horas de viagem. Até Manatuto a estrada é “boa” (boa em comparação com as restantes); tem uma paisagem magnífica porque segue sempre a linha do mar. Chegando a Manatuto, temos de entrar para a montanha. Entre curvas e contra-curvas, a última hora é numa estrada que mistura terra, areia, lama e pedras. No final o corpo está todo dorido, nem o cinto de segurança ampara.


Quando avistámos aquilo que pensámos ser Laclubar, perguntámos quanto tempo faltava. Disseram-nos os locais que ainda tínhamos entre 20 a 40 min pela frente e nós pensámos: “Aqui ninguém tem noção do tempo. É já ali!” Mas o facto é que de facto “é já ali”, mas a verdade é que são mais umas dúzias de curvas e contra-curvas; e não é que tinham razão?

Chegados a Laclubar, depois daquele trajecto terrível, num local onde não há rede telefónica, encontrámos uma acomodação de luxo com os Irmãos S. João de Deus que é onde o Pedro trabalha. Os irmãos estiveram a construir novos espaços para doentes mentais. Com a fotografia seguinte, acho que não preciso de descrever a recepção que tivémos:


Visitámos a clínica para tuberculosos onde o Pedro trabalha, a biblioteca e o ATL orientados pelo grupo e a igreja com uns vitrais que nunca vi em Timor. Os locais acolheram-nos de braços abertos, gente simples mas mais pura. Tivémos direito ainda a um jantar delicioso preparado pela D. Filomena que falava muito bem português.
Os mais aventureiros ainda subiram a montanha que abraça o vale na manhã do dia seguinte.
Uma paragem pelo mercado entusiasmou os que menos frequentam os mercados timorenses: um autêntico parque de estacionamento de cavalos e burros que há algumas horas atrás cavalgavam pelos montes acima e abaixo, trazendo as mercadorias para vender.

Sempre a chuviscar, partimos antes do almoço, ainda a tempo de um mergulho na praia e uma paragem em Manatuto para almoçar uns fritos tradicionais. Do Pedro ficou ainda mais a certeza da dimensão do coração dele. Um ano naquele local não é fácil, por mais belo que seja. E ficou ainda a promessa de que voltaríamos e desta vez para conhecer uma aldeia onde o Pedro também trabalha, a 12 horas de caminho a pé de Laclubar. Não esquecer desta vez as sapatilhas!


















sexta-feira, 30 de julho de 2010

MAIS UM CABELO BRANCO...

domingo, 25 de julho de 2010

Até ao próximo período!

Dia de Aileu: e desta vez com convidados especiais. A semana que antecedeu à ida foi marcada por várias chegadas (e partidas também). A Raquel, que fez missão comigo em 2006, foi uma delas.
A caminho de Aileu, os 3 manos pararam para uma foto:

Os meus 6 ajudantes puseram-se logo ao trabalho, a plastificar livros, cartões de motricidade e etiquetar as nossas caixas de arrumos:

A D. Lúcia afinal vai ter o bebé em Agosto (acho que houve um erro de cálculo). Por isso já não vai à formação. Mas felizmente a Lourença vai poder substituí-la, uma vez que também vai substituir a D. Lúcia durante o período pós-parto.
As nossas crianças, que já fizeram os exames e que avançam agora para a última semana de aulas, continuam com os seus magníficos trabalhos:
- Bonecos em pasta de papel:


- Aprendizagem da noção de esquerdo e direito:


- Alimentação: depois de ouvirem a história do pé de feijão, as crianças plantaram feijão em algodão e pintaram uma nuvem para ver se os seus pés de feijão também chegam às nuvens como na história


E acaba por aqui, porque agora vamos todos de férias e só voltamos daqui a 1 mês (incluíndo eu!!!!).

domingo, 11 de julho de 2010

Época da seca ou das chuvas?

Estamos em Julho e parece que a época das chuvas não quer acabar. Esta semana tivemos a pior inundação de todos os tempos. Mais umas horas de chuva e a capital ficaria submersa. Os timorenses estavam contentes e pediram por mais umas horas de chuva para que no dia seguinte não viessem trabalhar. No entanto, foi grave. Muitas casas destruídas, pessoas desaparecidas, carros parados, carros em contra-mão, o caos instalado.

Esta fotografia foi tirada à frente de minha casa, e pode-se dizer que nem estava muito mau. Agora na rua onde trabalho, a água dava-nos quase pela cintura. A solução: tirar os saltos altos, arregaçar a saia e regressar a casa. Claro que quando cheguei a casa estava com umas manchas meias manhosas nas pernas... enfim! O problema não foi o excesso de chuva (apesar de ter chovido uma grande carga de água), mas a falta de sistemas de saneamento e a limpeza.

Este fim-de-semana foi dedicado a Aileu, embora não tenha ficado muito satisfeita por vários motivos relacionados com a instituição “escola” e não com o seu funcionamento. Um deles prende-se com o final do segundo período. A Cruz Jovem – uma actividade da Igreja Católica em Timor (a cruz é levada de capela em capela durante um ano) – vem esta próxima semana para Aisirimou (o suco onde está situada a escola) e permanecerá até ao dia 8 de Agosto. Ora, tudo o que é feito aqui exige grande preparação prévia e acompanhamento, e a sua conclusão é também uma etapa bastante prolongada. Para além disso exige sempre muitos recursos humanos. O Centro de Educação veio-nos dizer que neste período lectivo não se iria fazer a entrega dos boletins de avaliação, nem as festas finais de período, dado que a Cruz Jovem estaria em Aisirimou e as pessoas (pais e crianças) não teriam tempo de ir à escola para ir tomar parte dos procedimentos típicos de final de período. É claro que para a comunidade é normal, porque é assim que acontece quando há algum evento da Igreja. Faz parte da sua vivência e não tem explicação, é um “must”. Mas para mim, não minha cultura, não percebo porque é que uma coisa influencia a outra e, principalmente, porque é que a Educação é sempre deixada em segundo plano e qualquer coisa é sempre mais prioritária. Ou seja, não teremos festa, mas as avaliações vão ser realizadas pelo menos na nossa escola e os pais vão ser convidados a vir à escola para verem os boletins quando lhes for mais oportuno.
Outra coisa que me aborreceu foi o facto de a nossa escola ter de contribuir com dois sacos de arroz para as festas da Cruz Jovem, quando as nossas crianças nunca têm direito a comer nestas festas. E, mais uma vez, somos obrigados a contribuir com algo que nos é tão valioso na escola e que ninguém irá repor.

A chuva não só afectou Díli como também a nossa escola. A sala “nova”, por mais obras que se façam, não tem solução. Só mesmo construir de novo, embora me dê pena porque apesar de tudo é bastante convidativa e a D. Lúcia mantém-na sempre arranjada. Teríamos de deitar as paredes abaixo e construir novas, mas ainda não há recursos financeiros para o fazer.

As crianças continuam a enfeitar as salas com os seus desenhos coloridos. Foi a semana da alimentação, então pintaram o desenvolvimento do milho na 2.ª infantil. A 1.ª infantil festejou o “suposto” início da época seca e pintaram as diferentes cores das folhas das árvores nesta época, com esponjas e aguarelas.

Os Presentes Solidários têm desaparecido a olhos vistos. Só na minha escola foram consumidos já 210kg de arroz em apenas 2 meses e meio. Gostam tanto da multi-mistura (já consumiram 10kg) que não se ficam por apenas uma pratada de arroz. Vamos comprar agora os nossos próprios pratos e colheres para não sobrecarregarmos as manas.

Enquanto fazíamos a nossa reunião, os filhos da Lourença brincavam no nosso escorrega improvisado.

A barriga da D. Lúcia está cada vez maior. Fui falar com as Irmãs da Caridade a ver se podiam dar boleia à D. Lúcia em Agosto para a formação em Díli, uma vez que não quero que ela venha para Díli na angguna naquele estado. A resposta foi negativa, uma vez que o condutor, que é timorense, não gosta de transportar mulheres naquele estado. Os timorenses têm muitas superstições. Para nós parece-nos estranho, mas gatos e cadáveres não entram em carros, a não ser em carros funerários ou ambulâncias e mesmo assim a porta de trás vai aberta. Tenho percebido que os internacionais recentemente chegados a Timor ficam chocados com a cultura, mas eu cá acho fascinante, até porque tenho a certeza que também os timorenses ficam chocados com a nossa cultura.